terça-feira, 7 de outubro de 2008

Cabeça nas Nuvens

O cenário era composto de uma diminuta janela por onde estavam fixos os dois pares de olhos ao espetáculo que acontecia em alta velocidade lá fora.

Aquilo era privilégio de poucos, e eles, estavam lá, diante do que acontecia gratuitamente como presente do Universo.

Não se davam conta das outras dezenas de pessoas que coexistiam ali por acaso ou não. Não prestavam atenção em nada mais além das cores que assumiam as nuvens em resposta aos generosos raios do Sol e os desenhos formados por elas.

A impressão era que havia um grande vale, parecendo um “Grand Canyon” suspenso, formado por gelo que na verdade eram nuvens alvas e aparentemente macias como algodão.

Foi num momento de contemplação que ela se deu conta de tudo o que acontecia ao seu redor. Da grande gratidão que sentia por ser agraciada com tantos prazeres ao mesmo tempo.

Tinha uma sorte imensurável. Assistia ao espetáculo da natureza acontecendo de modo ímpar, como uma apresentação particular, como se houvesse sido planejado tudo exatamente para aquele momento único.

Sentiu uma alegria e paz profunda. Estava no céu, literalmente. Nada mais importava ali, além do balé dos raios do Sol sobre as nuvens e a companhia do par de olhos mais preciosos que poderia ter ao lado dos seus , que através da mesma diminuta janela, estavam lá para perpetuar aquele instante em suas memórias pelo restante dos seus dias.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Amor em Pó




Nesse momento eu transbordo silêncio e reflexão. São muitas as vozes e eu preciso concentrar-me para escutá-las todas.

As mudanças planejadas tomam consistência e não se chocam com as que acontecem repentinamente.

A vida segue uma direção única, na qual a base é sempre o aprendizado. Sou uma fonte infinita de possibilidades, desde que eu as deixe aproximarem-se. A luz do Pai guia meus novos passos e estou segura pelas mãos Dele.

Talvez seja a fé o maior combustível para realizar aquilo que parece a princípio ser impossível.

Tenho a impressão muitas vezes que mesmo quando faço escolhas, elas não são totalmente minhas. Talvez algumas coisas estejam muito aquém do meu entendimento. A lógica diz que linhas paralelas nunca se encontram embora possam caminhar juntas.

A vida me mostrou que em algum lugar dessas linhas há um desvio... Um ponto de junção onde elas se tornam uma. A estrada fica mais larga e ganha uma gama de possibilidades novas.

A atenção deve ser ainda maior... São dois caminhos se tornando um. A soma não é só das belezas, mas também dos obstáculos. Há que se ter cuidado para pisar no território que também passou a ser responsabilidade sua.

Nesses casos vale a velha máxima: “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

A verdade é que todo mundo tenta explicar metaforicamente certas coisas da vida que não têm explicação lógica. Assim como ficamos procurando culpados para nossas desventuras, queremos também achar solução para o insolúvel ou ainda não acreditar naquilo que está bem diante dos olhos.

Essa é a velha vida. Esses são os mistérios humanos. Isso é o amor que perpetua em nós ainda que voltemos ao pó, porque até o ar que respiramos está cheio dele...


É uma pena que esteja tão poluído.


quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Pintura Inacabada


Evitaram olhar-se nos olhos na última vez. Tinham a voz embargada, tinham uma história inacabada.
Em poucos segundos, anos de amor foram revividos naquelas mentes, como um filme, onde o final não foi feliz.
O amor estava lá ainda, vivo gritando dentro deles. Confessaram-se covardes, cada um à sua maneira. Ele fugindo para o lugar de sempre, ela saindo pela porta da frente.
Não houve adeus, não houve até breve. Ao afastar-se carregava com ela impregnado nas narinas aquele perfume que tantas vezes lhe acendera os instintos.
Pode olhar pela porta entreaberta aquele rosto escondido atrás das lentes e do qual sabia todos os traços, parado, mirando o vazio e segurando as lágrimas.
Que amor ingrato era esse que nasceu para acorrentar essas almas?
Mistérios que a vida não revela ainda que se busque a verdade.
Ao distanciar-se ainda mais, tratou logo de ocupar as mãos, para não voltar em direção a ele e entregar-se num abraço interminável que só desejava dizer-lhe que desde sempre seria dele todo o seu amor, ainda que a vida insistisse em tentar provar-lhes o contrário.