domingo, 14 de dezembro de 2008

Sapos também têm olhos azuis...


Ele nada tinha de atraente além dos olhos azuis. Tinham um ar entristecido e contrastavam com os cabelos embaraçados e compridos cor de mel.

A barba sempre por fazer, as roupas sem coordenação de cores e nenhum tipo de alinhamento.

Usava calças largas, camiseta branca quase encoberta por uma camisa xadrez e o velho tênis preto.

Era 1993 quando ela o viu pela primeira vez. Paralisou-lhe o corpo, o tempo.

Estava acostumada com os moços certinhos e engomados. Não, aquilo não poderia ser. Gostava dos cabelos impecavelmente penteados, daquele tipo nenhum fio fora do lugar.

Gostava de camisas e blazers e gravatas e sapatos e todas as gentilezas protocolares e de sentir perfumes que muitas vezes disfarçavam o cheiro da masculinidade que naquele ser quase primitivo se excedia.

Ele tinha ferocidade no olhar. Não era cuidadoso ao falar e isso o tornava único e todos os seus enigmas a atraiam.

Num dia inesperado cruzaram-se os olhares e pela primeira vez sorriram-se. Para ela fora um delírio, o chão virou espuma. Para ele foi uma corrente elétrica percorrendo-lhe todo o corpo numa espécie de hipnose entorpecente.

Os dias foram passando e os encontros “casuais” mais freqüentes. Neles já se notavam mudanças.

Ele tentava disfarçar seu jeito desarrumado e ela tentava desarrumar o seu jeito alinhado. Era uma tentativa de misturarem suas identidades e ainda nem se sabiam os nomes.

Faltava-lhes a coragem de abordarem um ao outro com um medo, ainda que remoto, de rejeição.

Pareciam querer sustentar aquele platonismo até que alguém resolvesse se render.

Com a desculpa de precisar de uma caneta para anotar algo importante, num dos encontros casuais ele tomou a iniciativa de abordá-la e lhe pediu esse favor. A garota tremia tanto que mal conseguia abrir o zíper da bolsa. Ao devolver a caneta ele agradeceu e perguntou-lhe o nome e a conversa então se estendeu por um tempo na lanchonete em frente ao lugar que casualmente se encontravam todos os dias.

Conversaram cerca de três horas e ao decidirem ir embora, sem nada dizerem um ao outro, beijaram-se longamente como resposta ao clamor de suas vontades mais instintivas.

Descobriram em seus jeitos diferentes de ser, um amor que jamais experimentaram até então. Ele fazia músicas para ela em seu violão marrom com a caixa lascada e ela, fechava os olhos para viver seus sonhos embelezados pelas canções interpretadas na voz rouca que fazia brilhar ainda mais aqueles olhos azuis.

O amor trai as expectativas. Não existe nenhuma certeza até que o corpo estremeça diante do olhar que paralisa até o tempo.

Ela já nem ligava mais para os cabelos desgrenhados e as camisas xadrez.

Vivem esse amor através dos anos como se tivessem acabado de se apaixonar.

Há quem diga que esse sapo é o príncipe que ela sempre procurou nos moços engomados.

E como na história infantil, bastou o beijo para viverem todos os dias felizes para sempre.
No amor não prevalecem padrões, e que bom seria se todos eles fossem para o inferno!

8 comentários:

João da Silva disse...

Minha linda, que texto maravilhoso... e não é rasgação, não, eu garanto. Vou parodiar R. L. Stevenson, em "Travels With a Donkey in the Cévennes": I love for love's sake.
O amor não pode, mesmo, ser emoldurado. Não é a água que se amolde ao alcatruz. Ele manda, e não é mandado. Nas palavras de Kant, embora em uma linha paralela, o amor é, por essência, juízo a priori.
Amei!
Beijos carinhosos do João

Anônimo disse...

Vejo que tens narrado as histórias das vivências alheias misturadas às tuas.
Essa verdade emocional nas palavras sempre me surpreende,ainda que os anos tenham nos distanciado.
Tenho pensado muito em ti e tenho produzido desenhos parecidos contigo. Por que cortaste os cabelos e apagaste teu sorriso lindo da foto?
Que revolta é essa para mandares alguma coisa para o inferno?
Adoro tua ira escondida pela doçura.

Lello Garskinski

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

Que lindo Fernanda, este texto é lindo...
Esta época do ano é difícil me achar mesmo querida, mas prometo que tudo volta ao normal .
Esta semana vou entrar o msn, para falar com você, prometo.
beijos com sabor de panetone.

Cesar Oliveira disse...

bom texto, boa historia. Bom de ler

Fernanda Fernandes Fontes disse...

Oi Fernanda.

Parece que existe "algum" fardo em nosso nome não?! Me vi aqui em teu blog, na tua literatura. Qta beleza e verdade! Adoro camisas xadrez e cabelos desgrenhados quando de imaginários e engomadidos por idealizações...céus! Preciso mandar os padrões para o inferno msm! rs...e achar meu sapo-príncipe. rs...

Obrigada pela visita. Se veio pela Martha, já é amiga! Volterei e te espero outras vezes. Gostei muito daqui.

Abraços!

Celamar Maione disse...

Gostei da história. O ser que amamos é diferente dos demais. É especial. A regra para amar é amar ainda mais.
Obrigada pela visita e pelas palavras.
Seja bem-vinda e volte, por favor.
Beijão

Dona Sra. Urtigão disse...

Lindo mesmo, este texto.

ELTON NEVES O ANJO DAS LETRAS. disse...

Que lindo conto,nossa como você realmente escreve bem menina,este texto nos mostra que ás vezes aquilo que não faz o nosso tipo pode nos atrair,até porque nehum de nós nos conhecemos de verdade. No caso da tua protagonista,ela que adorava mauricinhos acabou se apaixonando pelo anti-mauricinho!E a conclusão do conto diz tudo,ela achou no anti-mauricinho oque tanto procurava nos mauricinhos da vida. O principe foi achado no sapo,mais uma vez por meio de um beijo,belo conto antigo dentro de um belo conto moderno.